Terra branca. Vento forte e frio. Sol se pondo. Um cenário lindo de se vê no fim de tarde na comunidade Lagoa dos Bois, município de Acauã, localizada a 13 km da cidade de Paulistana/PI.
Estive na comunidade para acompanhar a experiência da família de seu Marcelo e dona Severina. O casal, juntamente com os quatro filhos, cultiva tomate, cebola, coentro, beterraba, pimentão, alface, cheiro verde e batata para consumo. Os produtos estão plantados numa horta próxima ao barreiro que abastece a comunidade.
Essa é mais uma encantadora história de sobrevivência no semi-árido. Desde que nasceu seu Marcelo vive no local, mas sente muita diferença da infância que teve à vida que seus filhos têm hoje.
Olhando em volta da casa e conversando com Mônica, a filha mais velha de seu Marcelo, percebi um grande diferencial na vida das duas gerações. A garota de 14 anos é encantada por filmes e tem na televisão sua fonte de informação.
Como estuda à noite, Mônica passa as manhãs executando as tarefas de casa, pois sua mãe, dona Severina, passa o dia na roça. À tarde, ela senta em frente à tv e assiste a toda a programação que passa na telinha.
Diante dessa situação e de tantas outras adolescentes, como Mônica, que tem na tv um instrumento de entretenimento, busca por informação, instrumento pelo qual conhecem o mundo que, muitas vezes está tão distante do lugar onde vivem, fiquei pensando em como a televisão pode tornar-se um poderoso veículo de atração.
Mas porque a televisão atrai?
Tendo em vista o pensamento de Michel Foucault, a mídia (e, particularmente, a televisão) participa efetivamente da constituição de sujeitos e subjetividades, na medida em que produz imagens, significações, enfim, saberes que de alguma forma se dirigem à "educação" das pessoas, ensinando-lhes modos de ser e estar na cultura em que vivem.
Para Beatriz Sarlo, dentre os aspectos estruturadores da televisão, destaca-se a televisibilidade ou seja, uma condição, um conjunto de "qualidades" relativas a um estilo padrão, que todos devem dominar, desde os atores, até os que, nas mais diferentes posições, produzem os materiais de TV. Isso também pode ser estendido aos espectadores, porque estes passam a ser de alguma forma sujeitos não só das "verdades" ditas, mas, igualmente, de um certo modo ou estilo de dizer as coisas
Para a professora Rosa Maria Bueno, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a televisão, com seus recursos de linguagem e da definição de "televisibilidade", possui uma série de "categorias" assim discriminadas: a auto-referência (o modo como a TV fala de si mesma através de diferentes produtos); a repetição (imagens e estruturas que retornam, propiciando tranqüilidade, prazer e identificação); o aval de especialistas (para a legitimação das verdades narradas) e a informação didática (colocando o espectador na posição de quem deve ser cotidianamente ensinado).
A televisão apresenta também uma opção por um vocabulário "facilitado", traduzido, especialmente quando relacionado a termos técnicos; sem falar da reiteração do "papel social" da TV (o veículo apresentando-se como denunciador dos problemas sociais e, igualmente, como fonte das soluções possíveis; em suma, como um lugar "do bem"). E ainda a caracterização da TV como locus da "verdade ao vivo", da "realidade" (especialmente, nas transmissões ao vivo e na busca de imagens que "reproduzam o real", mesmo em comerciais e telenovelas), além da transformação da vida em espetáculo (seja nas produções ficcionais, seja nos materiais informativos stricto sensu); a caracterização da TV como o "paraíso dos corpos" (particularmente, dos corpos jovens e belos) e a reprodução na TV de práticas e normas nitidamente "escolarizadas".
Para a professora, essas técnicas que olhamos e que "nos olham", à medida que, a partir de nossa experiência com a televisão, nos convidam, nos capturam e nos ensinam modos de existir hoje, num tempo em que, "o poder investe cada vez mais em nossa vida cotidiana, nossa interioridade e individualidade".
Por exemplo, podemos citar o quadro "De volta para minha terra" do programa do Gugu, exibido aos domingos no SBT. No quadro, Gugu Liberato e um repórter contam a história de pessoas simples, que queiram retornar para sua cidade.
Tais estratégias captam os telespectadores na sua intimidade, produzindo neles, muitas vezes, a possibilidade de se reconhecerem naquelas verdades ou mesmo de se auto-avaliarem ou autodecifrarem com relação àquele tema.
Beatriz Sarlo considera ainda que recursos como os de captação de imagens, os cortes, os efeitos de zoom e tantos outros funcionam para capturar a intimidade de um sujeito que sofre, chora, emociona-se ou demonstra culpa, como se a TV pudesse, mesmo que por rápidos instantes, efetivamente penetrar na intimidade daquele que fala e, por homologia de campos, também na intimidade daquele que "especta", daquele que olha.
Essas são algumas técnicas utilizadas por aqueles que fazem televisão. Características que nos transformam em espectadores e nos atraem, nos deixam ligados aos mais diferentes programas, que encantam diversos públicos e opiniões.
Fico me perguntando, será que a Mônica, filha de seu Marcelo, algum dia saberá a dimensão dessa realidade? Conhecerá a estrutura da programação da televisão? Talvez, ela não aprofunde o tema, mas quem sabe os filhos dela. Será uma nova geração que viverá de um modo diferente no semi-árido, que conhecerá novas e diferentes técnicas de informação e adaptação e convivência harmoniosa com essa região.
A magia da televisão